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Rafael Cuellar: "CPI como ponto de partida para mudanças"

No último ano tenho utilizado frequentemente as seguintes linhas de ônibus: 600, 601, 606, 341, 368, 390, 422, 455, 433, 438, 439, 232, 238, 413 e 415. Quase diariamente utilizo as seguintes: 422 e 455. Como estudo na UFF, tenho utilizado com frequência o serviço das barcas. Além disso, utilizo também com certa frequência o metrô, principalmente a linha 1, mas eventualmente também a linha 2. Sobre os ônibus, posso dizer que todas as linhas apontadas acima apresentam péssimo serviço, com destaque para os fatores abaixo relacionados:

  • alta velocidade (acima do permitido);
  • pouco cuidado com idosos, que ao entrarem sofrem com os trancos até conseguirem se sentar;
  • mau humor dos motoristas, refletindo frieza, falta de educação e limitado sentimento de humanidade;
  • ruídos muito desconfortáveis à audição humana (freadas, aceleração, ranger dos bancos e janelas);
  • arrancam e trocam as primeiras marchas de modo extremamente brusco, sempre provocando trancos.

Provoca a mim muita estranheza notar que a grande maioria dos usuários naturalizam os fatores relacionados acima, enquanto, na verdade, são completamente inaceitáveis. As linhas que possuem motoristas-cobradores são ainda piores. O motorista-cobrador passa por um estorvo diário. Nunca vi um que tenha dirigido com um mínimo de profissionalismo. Não tenho certeza, mas me parece que pelo menos a linha 238 passa por essa situação. Permitir que um motorista dirija um ônibus do tamanho dos nossos, numa cidade como a nossa, sem as mínimas condições necessárias para manter o equilíbrio emocional, é no mínimo muita irresponsabilidade dos patrões e governantes.

As linhas 600, 601, 341, 368 e 390, ao passarem pela estrada Grajaú-Jacarepagua, levam de carona costumeiramente moradores das comunidades da serra. Este fato em si, vejo com bons olhos. O que me incomoda é desconfiar que isto ocorre somente por um suposto acordo entre as empresas de ônibus e criminosos das comunidades da região, que “garantem” a segurança dos ônibus e demais passageiros em troca das caronas. Me incomoda também mais um detalhe, quando no sentido Jacarepagua, nos horários de pico, não é possível simplesmente entrar no coletivo se o usuário está num dos pontos da rua Visconde de Santa Isabel. Os caroneiros simplesmente “entopem” a parte da frente do ônibus.

Quanto aos ônibus que passam pela avenida Presidente Vargas e pelo Aterro, além da velocidade assustadora, a distribuição dos pontos de parada está péssima. Se o passageiro não sabe exatamente qual o melhor ponto para desembarcar, corre grande risco de descer extremamente longe do seu destino, já que os pontos são muito distantes uns dos outros com a divisão dos BRS. O mesmo ocorre quando o usuário precisa tomar um ônibus e está longe do seu ponto de parada. A caminhada pelas pistas e a travessia delas, além de longa, é perigosíssima.

Sobre o metrô, me chama a atenção a piora com relação à falta de limpeza das estações, quando comparo ao período anterior à privatização. Sem falar no restrito crescimento das linhas. Os trens mais novos, com menos lugares sentados, são o perfeito retrato da crueldade com a população. É simplesmente ridículo usar o metrô em certos horários quando se encontra ainda longe de sua capacidade máxima, e mesmo assim ter que viajar em pé. Isso é um escárnio, uma afronta. Aliado à péssima organização das paradas de BRS na avenida Presidente Vargas e no aterro do Flamengo, esta é uma perfeita prova de incompetência profissional e, mais ainda, de que os membros do poder executivo não utilizam o sistema de transporte público. Um completo absurdo.

Ainda sobre o metrô, é uma vergonha ver tamanha distinção de qualidade entre as linhas 1 e 2, principalmente no que tange à frequência dos trens. Menor frequência para a linha 2, por quê? Outra vergonha, desastrosa, é o fechamento da estação General Osório justo no período da Copa das Confederações e da JMJ. Não há outra explicação a não ser o lobby de moradores “ilustres” de Ipanema e Leblon, que provavelmente julgaram indesejável receber o público destes eventos em suas praias, praças e avenidas.

Quanto às barcas, tenho tido a sorte de usar o serviço sempre no contra-fluxo. Assim, minha experiência pessoal quanto às piores falhas do sistema é quando vejo as enormes filas que se formam ao lado oposto do meu. O preço da passagem também é sem dúvida abusivo, muito caro. A falta da linha para São Gonçalo é mais um exemplo de descaso relacionado ainda com a privatização, que só favoreceu quem hoje opera este transporte e descumpre os contratos firmados há tantos anos, sem sofrer nehuma punição do governo.
 
Voltando aos ônibus, por ser o real foco da CPI, gostaria de enfatizar ainda mais dois pontos críticos. A propaganda exibida nas telas dos monitores é uma agressão aos usuários. Pagamos para passar na roleta e nos deslocarmos pela cidade e supostamente isso custeia o serviço. Sermos obrigados a assistir não só às propagandas comerciais, mas a todos os programas esdrúxulos, de baixíssimo nível, sem comprometimento algum com a boa informação e educação dos usuários, é no mínimo deprimente. O alto custo das passagens alegado pelas empresas como necessário ao custeio, além do lucro, é uma falácia deslavada. A desculpa para não monitorarem transparentemente o fluxo de usuários através de uso de uma simples tecnologia GPS é o custo do sistema, mas nada expõem sobre os custos (e ganhos) de se instalar e operar tais monitores/TV. Sem falar que as propagandas exibidas devem gerar provavelmente grande retorno às empresas. Tudo piora quando penso que é ridículo assumir que um serviço público deve obrigatoriamente dar lucro, principalmente se reconhecermos que o transporte público municipal não poderia ter como premissa a geração de lucro.
 
O último ponto refere-se ao engendramento com as empresas, e entre as empresas, no sentido de resguardar apenas seus interesses, relegando à último plano o objetivo de oferecer um bom serviço de transporte, o qual deveria ser na verdade o único objetivo. A qualidade do transporte público, principalmente dos ônibus, reflete a estrutura administrativa calcada no favorecimento pessoal, prática extremamente comum na sociedade brasileira e agravada na cidade do Rio de Janeiro. Indo mais além, vemos que a situação é realmente trágica ao sabermos que o domínio deste setor é dado às terríveis milícias ou na melhor das hipóteses a grupos familiares, que mais se assemelham a grupos mafiosos, desmembrando empresas para se enquandrarem em requisitos para terem concessões. Encobrindo toda a sórdida situação, a falta de transparência nos contratos e na prestação de contas torna a abertura da CPI imprescindível. Essa situação é um verdadeiro ralo de dinheiro e de moral se esvaindo ano após ano, humilhando a coletividade, deformando as relações sociais e dilapidando as contas públicas.
 
Enfim, tenho muita expectativa de que o desenvolvimento de uma investigação provoque a desestruturação e desestabilização nos esquemas relacionados, desarme e enfraqueça forças desleais, e se torne um ponto de partida para mudanças cruciais na nossa política, modificando totalmente algumas correlações de poder. Complementarmente, sugiro que seja criado um grupo de acompanhamento dos trabalhos da CPI, formado por representantes da sociedade civil, e que possa atuar como uma espécie de comissão independente de investigação e auditoria, com obejtivo de dar ainda mais transparência e força às investigações, com participação popular - Rafael Cuellar de Oliveira e Silva - oceanógrafo, estudante de mestrado da UFF

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