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Juliana Corrêa: "diferença gritante entre ônibus nas diversas áreas da cidade"

Sou usuária quase exclusivamente de transportes públicos, exceto quando consigo alguma carona de amigos. Circulo principalmente entre Tijuca, Centro, Zona Sul e Jacarepaguá. Também utilizo serviços intermunicipais com uma certa regularidade para Itaguaí, Seropédica e Niterói.

 

Não consigo elogiar os transportes de ônibus na cidade do Rio de Janeiro. Primeiro porque o custo é absurdo, tendo em vista a qualidade do serviço oferecido. Segundo porque não reconheço vantagens reais para os usuários, principalmente idosos, nas adaptações novas como os corredores BRS (grandes distâncias) e implementação de cartões de gratuidade (necessidade de liberação da catraca pelo cobrador).

 

Outro ponto grave é a forma de implementação e uso do Bilhete Único por CPF. Primeiro, em troca de uma redução de gastos total com deslocamentos maiores, o usuário é obrigado a identificar-se e gera dados sobre sua rotina e perfil de consumo para os administradores de tal sistema. Não sei quem tem acesso a esses dados, mas no mínimo as empresas privadas envolvidas em tal sistema devem tê-los. Não concordo com esta forma de “monitoramento” imposta pela concessão e evito usar o cartão sempre que utilizo um ônibus apenas. Além do mais, esta forma de subsídio é favorável à especulação financeira, pois nosso dinheiro é creditado para empresas ligadas ao consórcio, que contam com cifras desconhecidas de movimentação de crédito nos cartões e valores residuais constantes em grande escala.

 

Sobre o serviço de ônibus que utilizo, há alguns problemas que são cotidianos e constantes:

 

- Irregularidade nos horários: não é possível, mesmo em dias de trânsito menos caótico, planejar um horário para se chegar a um destino contando com horários de ônibus. Há políticas internas em empresas que “obrigam” os motoristas a correr ou a “segurar” o ônibus para que não tenha prejuízos em sua remuneração;

 

- Condução irresponsável e perigosa por  grande parte dos motoristas: em especial nas linhas da Zona Oeste que passam por Campo Grande e Guaratiba. Já estive em um ônibus que trafegou em alta velocidade pelo acostamento sem iluminação e pela contra-mão (!!!) durante as obras do BRT (sendo que utilizava a linha Itaguaí - Barra da Tijuca apenas uma vez a cada quinze dias e sempre sentia que poderia ser a última viagem em minha vida). Nas linhas 422 e 455, que utilizo atualmente com bastante frequência, a sensação é de que a maioria dos motoristas (com raríssimas exceções) estão dispostos a qualquer absurdo para cumprirem as metas de horário apresentadas por seus empregadores. As demais linhas chegam a parecer bem conduzidas, o que nem sempre é verdade, se comparadas aos excessos dos condutores da linha 422. Quando pegamos um motorista que dirige dentro da velocidade estipulada e que respeita as leis de trânsito é impossível não notar, pela raridade. Apesar da quantidade de passageiros idosos e mulheres com crianças de colo, a condução dos ônibus na cidade é muito ruim, com freadas bruscas e ausência de tolerância para embarque e desembarque de passageiros. Ônibus vazios passando direto pelo ponto enquanto outro cheio pára; portas fechando antes do desembarque e machucando idosos; pessoas sendo “saculejadas” e “arremessadas” para lá em para cá enquanto o ônibus ziguezagueia pelas ruas, etc.

 

- A dupla função motorista-cobrador: este acúmulo de funções é absurdo, estressante e perigoso. Não é autorizado falar ao celular quando se dirige, portanto os motoristas deveriam permanecer no ponto até que todos os passageiros pagassem e sentassem. Mas não é isto o que acontece e é perceptível a irritação destes condutores pela sobrecarga de funções.

 

- Diferença gritante entre os serviços que servem à zona sul carioca e à baixada fluminense: em minhas constantes viagens pelo Rio e arredores pude observar que há uma diferença gritante entre a regularidade de horários e número de ônibus circulando nas diversas áreas da cidade. Ônibus lotado “tipo lata de sardinha” não são constantes na zona sul do Rio de Janeiro. Mas basta escolher uma linha que sirva à baixada fluminense ou que ligue a zona sul à zona norte e oeste da cidade, que será possível observar absurdos inimagináveis em relação ao número de passageiros transportados e condições de manutenção dos ônibus. Não estou falando do BRT, estou falando do direito de ir e vir do cidadão, inclusive dentro de seu próprio bairro. Uma comparação das frotas em diferentes localidades do Rio de Janeiro com dados não atualizados está disponível em Chão Urbano. Uma consequência (proposital  ou não) é a expansão de transportes alternativos irregulares e sabidamente dominados por grupos paramilitares na zona oeste do Rio de Janeiro. Está nos grandes canais de comunicação, não é segredo.

 

Concluindo, a grande questão não é se o transporte deve ou não ser subsidiado. Transporte público não é negócio! É direito!

 

O mistério, a caixa-preta acerca da escolha dos consórcios e os critérios para estabelecer a remuneração por estes serviços vergonhosos prestados à população é que  não pode mais ser ignorada e mantida em segredo. Temos o direito de saber o que está sendo feito com o nosso dinheiro e com o nosso direito de ir e vir livremente e sem monitoramento por grupos de interesse privado ou público."

Juliana Corrêa - usuária de várias linhas de ônibus

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