em Na Mídia

por Maria Luisa de Melo (Jornal do Brasil)

Além da dupla jornada de dirigir e cobrar passagens, não  há como reservar tempo para almoçar. Banheiros para fazer as necessidades fisiológicas no ponto final são raridade. A rotina, sacrificada, se justifica pela busca de um salário. Mas, com a chegada do contracheque, vem a surpresa: brotam descontos ilegais. Os dias que os motoristas são dispensados viram faltas, e as gratuidades que entram pela porta traseira exibindo identidade ou declaração, têm suas passagens descontadas dos salários dos motoristas. É o ‘vale-filmagem’. “Queria que me mostrassem as imagens comprovando que permiti a entrada por trás”, pede um dos entrevistados, que trabalha na Transurb, apontada pelo Sindicato dos Motoristas e Cobradores de Ônibus do Rio como a que mais desrespeita os direitos trabalhistas.

Há quanto tempo você trabalha como motorista e como é a sua rotina na cidade? 

Motorista 1:  Estou na Transurb há 11 meses, mas antes disso trabalhei em uma empresa da Zona Oeste. Essa é bem pior que a anterior, não tem comparação. Já começa pelo fato de a empresa não contabilizar as gratuidades que a gente carrega. Só contam os pagantes, seja no bilhete único ou no dinheiro. Na linha Troncal 5 (Central – Gávea), sou obrigado a bater uma meta de 200 pagantes. Por dia, tenho três viagens completas para alcançar a meta. Vou da Central até a Gávea e volto três vezes. Se eu não carregar o número de passageiros que a empresa determina, é gancho na certa.

O que é “gancho”? 

Motorista 1: É uma suspensão. Somos impedidos de trabalhar no dia seguinte por não cumprimento da meta. Só que isso é uma covardia, porque não tenho como garantir o número de passageiros que vou conseguir levar, por mais que eu me esforce. Cada dia é um dia de risco. A gente sai de casa torcendo para as pessoas subirem no ônibus que a gente trabalha. Porque, se isso não acontece, o prejuízo não é da empresa. É nosso. Infelizmente, já fui suspenso várias vezes. A gente trabalha um dia pedindo a Deus para não ser impedido de  trabalhar no dia seguinte. Cada suspensão representa um dia de trabalho descontado. Fazem de tudo para nos dar falta, suspensão, pra gente não pegar o salário a que temos direito. É um ciclo vicioso: o gancho, provoca a suspensão, a suspensão provoca o desconto no contracheque e a perda do Sodexo (vale-alimentação) do mês inteiro. A impressão que eu tenho é a de que a Transurb quer que a gente faça igual motorista de van: pare o ônibus no meio da rua e fique chamando o passageiro no berro, pedindo para ele subir no coletivo. Já caí no gancho várias vezes e isso prejudica até o nosso adiantamento. O adiantamento da gente é de cerca de R$ 900. Uma parte do salário no dia 20 e outra no quinto dia útil. Só que no dia 20, devido à suspensão de quatro dias que eu peguei, só recebi R$ 400 de adiantamento.

Além do vale-alimentação, quais os outros benefícios que vocês têm?

Motorista 1: Na Transurb, só recebemos o Sodexo. 

Não recebemos sequer cesta básica, como fazem outras empresas. Esse vale-alimentação, no valor de R$ 210, é cortado toda vez que a gente cai no gancho. É uma covardia por dia e não temos o que fazer. Moro com minha mulher e dois enteados. Preciso muito do meu salário, mas o valor é sempre uma surpresa no fim do mês. Porque as suspensões são ao bel prazer da empresa. Se a gente ficar doente e precisar faltar, a empresa desconta o nosso dia de trabalho e corta o nosso Sodexo do mesmo jeito, ignorando que a gente tenha ficado doente. Não aceitam atestado médico,  seja de hospital público ou particular.

Quando vocês reclamam, qual a justificativa? 

Motorista 1: Não tem conversa. A gente é descontado e não adianta reclamar. O jeito é grampearmos a xerox  do atestado médico no contracheque e guardarmos para processar a empresa quando a gente sair. Enquanto a gente trabalhar na empresa, não há o que fazer.

Há algo que possa ser feito para evitar o “gancho”? 

Motorista 1: Na hora do desespero, quando vejo que não estou conseguindo bater a meta de 200 passageiros por dia, eu troco a vista. Mudo a linha. Fazendo outro trajeto,  eu tento evitar não bater a meta e, consequentemente, a suspensão no dia seguinte. É muita concorrência. O horário da manhã, que tem mais movimento, eu não posso fazer porque moro longe da garagem da empresa. A Transurb fica no Engenho de Dentro e eu moro na Zona Oeste. Só me resta o horário da tarde. Trabalho de uma da tarde e vou até umas dez da noite. A gente passa do horário, mas nem sempre recebemos as horas extras.

Como assim? 

Não há uma prestação de contas sobre as horas extras? Motorista 1: Não temos nenhum controle se aquilo está certo ou errado. Na maior parte das vezes, acredito que esteja errado.  Há meses em que eu passo mais do horário e recebo menos horas extras do que os meses que trabalho menos. A empresa não nos apresenta nenhum comprovante. Ninguém bate cartão. É tudo feito pelas guias em papel, facilmente alteradas.

Além das suspensões por não bater a meta, há outros descontos irregulares?

Motorista 2 (linha C-10): Muitas vezes mandam a gente ir trabalhar sem ter ônibus pra todo mundo. Fazem isso porque, se alguém faltar, a empresa não fica na mão. Na prática, o que acontece é que quem sobra é obrigado a voltar de tarde. Já imaginou chegar 5 da manhã na garagem da empresa e te mandarem voltar de tarde para, talvez, te darem um ônibus para dirigir? Se te dispensarem naquele dia, eles descontam da nossa folga semanal. E, dependendo do número de vezes que isso acontecer, se exceder o número de folgas que a gente tenha no mês, descontam do nosso salário. Então, a situação é muito absurda. Se nos dão o ônibus para trabalhar, mas não conseguimos bater a meta de passageiros, mesmo a gente se esforçando, vai de 200 a 300 por dia dependendo da linha, a gente leva suspensão, e é descontado do salário. Quando  a gente vai trabalhar e sobra, perdemos a folga e também podemos ser descontados. Mas não é só isso. Quando o contracheque chega, vem com o desconto do “vale-filmagem” todo mês.

O que é o ‘vale-filmagem’? 

Motorista 2: É um desconto que vem todo mês em nosso contracheque. Dizem que é para compensar o valor das passagens que a empresa perde quando deixamos alguém entrar pela parte de trás do ônibus. Mas só quem eu deixo entrar pela traseira são as gratuidades  que não têm RioCard, mediante apresentação de identidade, ou estudantes com declaração escolar. Mas, mesmo que mostrem para a câmera, não adianta. Descontam do nosso salário. Há pouco tempo passei a andar com os contracheques no bolso para mostrar os meus descontos e sensibilizar quem insistisse em pedir para entrar por trás. O mais absurdo é que, mesmo quando não deixamos ninguém entrar por trás, o desconto vem do mesmo jeito. Poderiam nos mostrar as imagens que eles dizem que comprovam as nossas falhas e, consequentemente, os descontos. Mas não mostram e a gente não pode reclamar de nada, porque precisamos do emprego. Tenho dois filhos, minha mulher é diarista e também não ganha muito. Preciso de um emprego fixo para arcar com os R$ 600 de aluguel e as compras da casa. Mesmo que a gente faça tudo certo, nunca sabemos  qual será o nosso pagamento. É uma coisa completamente arbitrária. Não existe um motorista da Transurb que não tenha esse desconto, o que varia é o valor, que vai de R$ 80 a R$ 200. Parece que foi criado só para a empresa ganhar dinheiro em cima da gente.

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